Cabos: Uma Complexidade Eletromagnética

pwr-1

Haja discussão fértil e difícil, quando o assunto em pauta se concentra nos cabos!  Dentre os quatro cantos do universo dos amantes do áudio e da boa música, as opiniões são as mais diversas e divergentes possíveis: enquanto alguns não dão muita importância aos cabos, outros já estão com sérias dúvidas a respeito da influência que eles possam ter, e outros, apesar de terem opiniões formadas, são bem contraditórios entre si quanto ao que pensam ser um bom cabo e quanto ao grau de importância que ele possa ter no sistema. E há ainda os que defendam fervorosamente a tese de que os cabos têm uma marcante influência na qualidade do som e da imagem. Afinal de contas, onde está a verdade nesta estória toda? Proponho-me, nestes três artigos, a compartilhar a minha experiência, associando-a à teoria eletroeletrônica, onde vamos levantar uma tese quanto à real influência dos cabos em um sistema de áudio e vídeo. Vamos analisar o que ocorre nos sistemas desde a base até o topo do pinheiro.

Como vocês já devem ter percebido, sou um apaixonado pelo áudio/vídeo. Gosto demais deste campo, por ser ele tão abrangente e interessante. Ele vai nos envolvendo nas áreas elétrica e eletrônica dos equipamentos, onde também nos deparamos com a problemática do eletromagnetismo, nos envolve na acústica, que é uma área profunda e apaixonante, na física de forma geral, na influência das vibrações junto aos alto-falantes e também no efeito das vibrações do solo sobre os equipamentos. Podemos ir além e entrar na questão das sensações auditivas, nos efeitos psico-acústicos, abordando até aspectos da área médica, etc. De fato, o áudio é bastante complexo, abrangente e atraente. Neste artigo, pretendo trazer as minhas considerações a respeito de um assunto bastante polêmico: o efeito dos cabos nos sistemas de áudio e vídeo.

Todos têm Razão

Entre as várias opiniões a respeito de cabos, três grupos se destacam. Um deles  acha que os cabos não têm nenhuma influência no resultado sonoro ou na qualidade da imagem. Este grupo, sem dúvida alguma, é o maior de todos, com larga vantagem sobre os outros dois. Inclusive é tão grande que, somente há poucos anos, renomadas revistas internacionais de áudio e vídeo começaram a analisar melhor esta questão e a conferirem maior importância aos cabos no resultado final de um sistema. Um segundo grupo, muito menor do que o anterior, já percebeu alguma influência em pelo menos um dos tipos dos diversos cabos existentes (cabos de interconexão, cabos para caixas acústicas, cabos digitais, ou cabos de força), mas essas pessoas estão inseguras nesta questão, pois percebem alguma variação sonora, mas não têm uma explicação técnica razoável para o fenômeno. E há um terceiro grupo, o menor de todos, que reconhece uma enorme influência, tanto na parte sonora como na imagem. Este grupo normalmente tem sistemas de categorias mais altas. Chegam a considerar esta influência tão grande, como se ela equivalesse à troca de algum aparelho do sistema por um outro de nível superior. Como explicar todo este desencontro de opiniões?

Uma das razões é que, ainda hoje, apenas um pequeníssimo grupo de fabricantes realmente domina a tecnologia da confecção de bons cabos, como já havíamos relatado na nossa série “O Topo do Pinheiro” , que brevemente também sairá no nosso site, onde nos baseamos em informações retiradas da revista AUDIO alemã. Estes fabricantes investem em pesquisa, mas… guardam seus resultados a sete chaves, fazendo um marketing muito vago e pouco esclarecedor quanto à parte técnica dos seus produtos.

E que outras razões poderiam explicar o fato do grande público ter opiniões tão divergentes a respeito da influência qualitativa dos cabos?
Se analisarmos, de forma abrangente, as conclusões a que chegam os três grupos acima mencionados, vamos perceber que todos têm razão no que falam. A experiência de cada um pode comprovar este fato. Ninguém está se equivocando deliberadamente. Todos têm razão e estão corretos em suas conclusões e afirmações!


O grande problema está em que as premissas de cada um são tão diferentes, envolvendo inúmeros tipos de equipamentos, sistemas, salas, elétrica, existindo uma diversidade muito grande entre eles. E isto traz os diferentes resultados nas avaliações finais. Como a maioria acha que está com um equipamento de nível já bem razoável, que seu sistema é um bom sistema, apesar de não ser o “super ideal”, mas com uma composição de aparelhos já respeitável – e isso tudo por uma barganha, vejam só! – estas pessoas emitem opiniões desencontradas, sem se dar conta de que o seu equipamento está participando de uma forma desconhecida e muito ativa nesta avaliação pessoal. Vou lhes dar um exemplo bem geral, para vocês terem uma idéia de como isto ocorre.

Vamos considerar dois cabos, que podem ser de interconexão, ou de caixas acústicas, ou cabos de força, qualquer um deles, onde o cabo A custa por volta de US$ 100,00 o metro e o cabo B em torno de US$ 1000,00 o metro. É sabidamente conhecido que, entre os dois, o cabo B é superior. Por que? Devido à sua maior linearidade (equilíbrio tonal), pois reproduz todas as freqüências de forma equilibrada e por igual. Esta característica, aliada a outras, não tão marcantes, mas importantes também, faz dele um cabo muito bom. Mas o cabo A já não apresenta esta mesma planidade na reprodução sonora, pois lhe faltam os extremos, ou seja, ele não apresenta o espectro completo nas altas e baixas freqüências, sendo, como chamamos de um cabo “fechado”.
Muito bem, vamos aos testes!

Teste número 1: vamos supor que um audiófilo amigo nosso vai testar estes dois cabos no seu sistema. Vamos dizer que está se tratando de um sistema pertencente à categoria bronze, ou prata de entrada, que tem falta na reprodução das baixas freqüências, ou seja, se nota que há falta das freqüências mais graves. Vamos supor também que este sistema possua um bom receiver, mas que o nosso amigo ainda não se deu conta que o seu receiver apresenta um equilíbrio tonal onde as altas freqüências se sobressaem, ou seja, ele não sabe que este receiver metaliza o som. Agora o nosso amigo vai fazer o teste auditivo com os dois cabos em questão e comparar o resultado sonoro apresentado por cada cabo. Monta primeiro o cabo A, que é mais “fechado”. Como resultado auditivo, constata que a parte referente às altas freqüências ficou muito boa, quase excelente! E, com isso, o equilíbrio geral melhorou! Por que? É que, neste caso, ocorreu uma certa compensação entre o cabo mais “fechado” e o receiver com os agudos mais ressaltados. Ao montar o cabo B, que é mais plano, percebe que o resultado sonoro fica aberto demais e conclui que o cabo B é muito aberto, podendo chegar mesmo a ser estridente na parte das altas freqüências. Quanto à parte das baixas freqüências, não consegue ouvir nenhuma grande diferença que valha a pena assinalar, devido à limitação geral do seu sistema. E este nosso amigo audiófilo, então, acaba considerando o cabo A mais musical e, apesar de não ser tão nítido como o cabo B, vai preferir ficar com o cabo A. Além do mais, é um cabo muito mais barato! Este nosso amigo não percebe que o problema está no receiver e não no cabo. Mas ele ainda não se deu conta disto e pode até concluir que o cabo mais caro (B) é uma pura enganação pois, a seu ver, ele não tem melhor som do que o cabo A. Este audiófilo entrou por um galho do pinheiro, uma vez que o seu elo mais fraco é o receiver e, no entanto, ele está procurando melhorar seu sistema trocando os cabos! Nada a ver! Vejam só a confusão que se estabeleceu neste nosso exemplo! Ele vai gastar muito dinheiro, tentando melhorar seu resultado sonoro, permanecendo no galho do pinheiro, até descobrir que, para voltar ao tronco e poder continuar subindo em direção ao topo do pinheiro, terá que fazer um “up grade” do receiver. E este exemplo é, infelizmente, muito mais comum do que se pode imaginar! Vejam como cada um de nós precisa tomar muito cuidado com as experiências que realiza, para não incorrer em conclusões duvidosas. Por isso, sou de opinião que, se você não tiver um sistema pelo menos da categoria ouro de entrada ou diamante para fazer os seus testes, ou se você não tiver uma literatura confiável, com revistas e magazines especializados em áudio/vídeo, deve evitar chegar a conclusões baseadas apenas em seu sistema. Você poderá estar chegando simplesmente a conclusões totalmente equivocadas! E se você não questionar suas conclusões, essas suas “verdades”, infelizmente você não sairá deste galho tão cedo!

Teste número 2: imagine agora outro audiófilo, testando os dois cabos em seu sistema, e que tenha um receiver com um melhor equilíbrio tonal. Chegará a uma conclusão totalmente diferente pois, ao testar o cabo A, o som ficará muito “fechado” e mais “escuro” e, com o cabo B, o som se abrirá e, como um todo, ficará mais equilibrado tonalmente. Este audiófilo vai achar o cabo B muito melhor do que o cabo A, mas… ai como ele é caro! Esta é a coerência dos fatos!

Imaginem agora uma troca de idéias entre estes dois audiófilos. Dois cabos de áudio e duas opiniões bem diferentes. Quem tem razão? Evidentemente os dois estão certos, cada um com sua análise particular e com suas premissas dos seus sistemas, ambos procurando melhorar o seu som. Um deles está chegando à ponta de um galho (sem saída) e o outro está indo ao topo do pinheiro. Vejam só como são as coisas!

Quando as Diferenças começam a ser Audíveis

Nos cursos de percepção musical muitas vezes são mostradas as diferenças entre cabos, sejam eles de interconexão, de caixas acústicas, digitais ou cabos de força. Recomendo que vocês realizem estas comparações entre cabos, para que possam aprimorar sua percepção auditiva. E, ao contrário do que eu pensava no início da minha audiofilia, a percepção auditiva não é algo inteiramente inato, precisa ser apreendida e desenvolvida. Se você participar de cursos, ou fizer comparações em sistemas de topo, se inteirar de uma metodologia e a estudar cuidadosamente, verá que, ao longo do tempo, seu discernimento para as avaliações musicais melhorará muito, adquirindo maior precisão. Um exemplo grosseiro é a melhoria na capacidade de percepção de variações de pressão sonora. Uma pessoa sem treino auditivo consegue perceber variações em torno de 3dB e, ao longo do tempo, treinando seu ouvido, vai conseguir captar diferenças auditivas de até em torno de 0,1 dB e isto ainda selecionado por freqüência. Portanto, sem dúvida alguma, é necessário aprender a ouvir música, pois como fala um provérbio alemão: “A Prática faz o Mestre” (Die Übung macht den Meister!).

Falo isso porque, alguns colegas têm certas dificuldades de perceber algumas diferenças auditivas entre os cabos, provavelmente por simples falta de treino e por falta da prática de ouvir música ao vivo, o que recomendo fortemente a todos.

Como vocês puderam perceber, as diferenças de cabos só deverão ser analisadas quando o seu sistema já tiver atingido um certo nível, já com um excelente equilíbrio tonal e também quando você já tiver desenvolvido uma acuidade auditiva razoável.

É bom lembrar que existem, nas várias metodologias de classificação de equipamentos, muitas categorias. Uma delas seria, a saber: bronze, prata, ouro e diamante. Sou de opinião que, somente a partir da categoria prata recomendada, os cabos começam a ser importantes, devido à influência auditiva que poderão ter no sistema, sendo que na categoria diamante passam a ter um peso muito grande, inclusive sendo decisivos na avaliação final do sistema.

04-08-cabos1-3

Conclusão

Iniciamos aqui a análise da influência dos cabos sobre um sistema de som, mostrando, de início, algumas das razões para as opiniões tão desencontradas que constatamos no nosso meio. Como vimos, é muito difícil de se avaliar cabos. É preciso que o nosso sistema seja de alto nível, diria na categoria ouro ou diamante, para que as nossas conclusões sejam aceitáveis e coerentes. De outra forma, deveremos no mínimo especificar os componentes do sistema em que os cabos foram avaliados, juntamente com a conclusão a que chegamos, para não cometermos erros grosseiros.

Nos próximos artigos, vamos entrar um pouco na tecnologia dos cabos, para desvendar o que está por trás de tanto mistério. Com certeza não são apenas dois ou três fiozinhos entrelaçados, correndo ali por dentro, e pronto!

Fonte: Jorge Knirsch
Audiophile News
http://www.byknirsch.com.br/

 

O que é importante para os cabos de caixas acústicas?

Equipamentos e Cabos

Não sei se é de conhecimento geral, mas os cabos de caixas acústicas são os mais importantes dentre todos os cabos de um sistema de áudio, ou seja, são os que maior influência podem exercer sobre o conjunto. Assim, vamos aqui iniciar uma nova série e estudar os cabos de caixas acústicas um pouco mais de perto. Para analisá-los mais detalhadamente, iremos verificar alguns parâmetros importantes:

  • O material empregado;
  • A impedância;
  • A capacitância;
  • A indutância;
  • O dielétrico e a geometria;
  • As soldas e os terminais;
  • Bi-wiring.

O Material Empregado

Qual a importância do material condutor? A escolha do material condutor, para um cabo de áudio, é de suma importância, principalmente para a obtenção de um resultado final de qualidade. E, no caso dos cabos de caixas acústicas, a escolha de um bom material condutor se reveste de uma relevância ainda maior, devido à grande influência que eles têm sobre o sistema.

Um material com bom índice de condutividade tem a capacidade de transportar a corrente elétrica com um mínimo de perdas possível. Quanto maior for o valor da condutividade, melhor a qualidade do material empregado. Na verdade, o valor da condutibilidade expressa quantos metros são necessários para se obter um Ohm de perdas para cada mm² de secção transversal do material. Assim, a unidade de condutibilidade é: m/Ohm x mm². Por exemplo, em condições normais, o material que melhor condutibilidade apresenta é a prata, cujo fio de 1mm² precisa de 62 metros para ter uma queda de resistência de 1,0 Ohm. Em seguida vem o cobre, com um valor de 56m/Ohm x mm², ou seja, o cobre tem uma condutibilidade quase 10% menor que a da prata. Após o cobre vem o ouro, com uma condutibilidade de 47,6m/Ohm x mm², ou seja, 15% menor que a do cobre.

É importante salientar que, tanto a prata como o ouro possuem uma característica sônica bem marcante, peculiar e diferenciada. Enquanto que a prata tende a metalizar o resultado sonoro, valorizando as altas freqüências, o ouro possui a característica de valorizar os médios baixos. Dos três metais mais empregados no áudio, o cobre apresenta-se como o material mais neutro, do ponto de vista sonoro, e é, sem dúvida, o mais aplicado na eletrônica analógica e digital. Existem muitos cabos que usam uma liga feita com dois ou três destes metais, mas são muito mais caros, considerando o seu preço por metro, e nem sempre têm uma qualidade sonora superior que possa corresponder a esse preço.

Embora o cobre seja o metal mais empregado no áudio, ele precisa de tratamento. Acontece que o cobre normal não tem a pureza necessária, devido aos óxidos de cobre e outras impurezas nele existentes, que fazem com que o som se torne granulado, ou seja, com baixa resolução. O cobre normal, quando de boa qualidade, possui em média uma pureza entre 235 a 250 PPM (ou seja, ele contem 235 a 250 moléculas de impurezas para cada milhão de moléculas de cobre). Assim, procura-se purificar o cobre no seu processo de fabricação, retirando-se as impurezas e os óxidos. A este cobre, costumamos chamar OFC (Oxygen Free Copper) ou OFHC (Oxygen Free High Conductivity). Neste caso, o valor cai para algo entre 40 a 50 PPM, cuja pureza é melhor do que 99,95% de cobre em peso. Alguns fabricantes também nomeiam esse cobre de pureza mais alta como sendo 5N, 6N ou até 8N = 99,99999999% (8 digitos após a vírgula). Acontece que não existe comprovação de que a redução de impurezas de cobre acima de 99,95% sejam audíveis em uma reprodução sonora.
Outro ponto interessante é com relação ao comprimento dos cristais de cobre. O cobre normal possui de 4.000 a 5.000 cristais por metro. Dizem que, entre estes cristais, criam-se indutâncias, capacitâncias e até uma certa função de diodo, que podem deteriorar a qualidade do som. Assim, procura-se diminuir o número de cristais por metro, aumentando o tamanho destes cristais. Sabemos que o processo de fabricação do cobre OFC/OFHC já reduz o número de cristais para algo em torno de 1000 cristais/metro. Mas existe um processo que aumenta ainda mais o tamanho dos cristais, chamado de cobre – LGC (Long Grain Copper), que reduz o volume de cristais para algo entre 200 a 300 cristais por metro. No entanto, o processo mais avançado que temos hoje, dizem, é o processo do Professor Ohno, chamado de UPC-OCC (Ultra Pur Copper – Ohno Continuos Casting). Neste processo, o cobre é mais fundido do que extrudado a frio, como se usa normalmente, obtendo-se assim um único cristal que pode chegar ao comprimento de 200m. Este cristal fica na direção da condução elétrica do cabo e muitos dizem que a diferença conquistada é audível, enquanto que outros acham muita graça nestas afirmações. Não tenho conhecimento de testes conclusivos sobre estas diferenças auditivas relacionadas ao tamanho dos cristais.

Desejo a todos boas audições e também muito bom senso!!

Fonte: Jorge Knirsch
Audiophile News
http://www.byknirsch.com.br/